10 de Dezembro
Dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Parágrafo
único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro
menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres
do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a
armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo
porque a verdade
passará a ser servida antes da
sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez
séculos, a prática
sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e
a comida de ambos terá o mesmo gosto de
aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o
reinado permanente da
justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira
generosa
para sempre desfraldada na alma do
povo.
Artigo
VIII
Fica
decretado que a maior dor sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é
a água que dá à planta o milagre
da flor.
Artigo
IX
Fica
permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas
que sobretudo tenha sempre o quente sabor da
ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do
traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que
ama
e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da
manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido, tudo será permitido,
inclusive brincar com os
rinocerontes e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na
lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem
amor.
Artigo
XIII
Fica
decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol
das manhãs
vindouras.
Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará
em
uma espada fraternal para defender o direito de cantar e
a festa do dia que
chegou.
Artigo
Final
Fica
proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida
dos
dicionários e do pântano enganoso das bocas.
A partir
deste instante a liberdade será algo vivo e
transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será
sempre o coração do
homem.
Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

Enviado por Sylvia Cohin
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