|
A madrugada a surpreendeu de blazer e sapato de
salto. Indesculpavelmente vestida, sem
coragem para um banho.
Aproveitou para olhar a cidade, o silêncio passeando por entre as folhas das árvores,
completamente, imóveis.
Todos os segredos da noite só para ela. E, se existisse outro alguém acordado naquele
instante, estaria, provavelmente, dentro
de uma outra noite.
Porque cada ser é mais belo dentro de sua própria
noite. Depois, há lugares e momentos que
só podemos viver sozinhos.
Há olhares que são únicos. Há pensamentos
castos. Há verdades
incompartilháveis. Há momentos em que
ficamos estreitos, nos afunilamos tanto em
nós mesmos que chegamos a tramar ou, conspirar desejos secretos.
E ela queria mesmo ficar só. Preferia o chá solitário na madrugada -
ridiculamente vestida - a ter de ir dez
vezes à toalete para verificar se o cabelo continuava
intacto, se o rímel não havia
escorrido, se o batom não se desbotara pelas tantas vezes que o copo fora à boca na tentativa de
evitar frases ambíguas ou para não se render diante da luz
íntima desenvolvida para
seduzir.
Por tudo isso, ela preferia
a solidão a ter de se curvar à doçura de um sorriso que a conquistou na imprudência de
uma distração. Preferia o egoísmo de
querer a noite só para si a ter de
se extasiar diante do charme da história
dele.
História, misteriosamente, guardada que ele revelava em
pequenas porções até torturar seu
olhar deslindador curioso querendo ir além e tendo de se contentar com a medida de um
conta-gotas.
Nada de sobejar
afetos! Embora fosse capaz de
engolir a saliva dele com paixão e chá, recuava-se! Era melhor aquele viver de boca
fechada, aquelas ervas com sabor de
flores ardendo por dentro.
Nem sabia se estava certa em suas teorias, mas tudo haveria
de passar e daqui a pouco quando o
silêncio tocar novamente as folhas das árvores não mais se lembrará da existência
dele. E não ouvirá mais a mesma
música, nem lerá o mesmo poema, nem escreverá textos líricos em papéis
amarelados.
Um terço de sua mente
estava ocupada com essas bobagens. O
restante saltava por cima para a contemplar a página 81 do
livro que ela resolvera abrir para
adiantar um pouco a leitura.
Um tratado acerca da literatura medieval. A coisa mais maçante que um leigo pode
encarar. Mas ela não queria ficar
devendo esses conhecimentos. Franzia a
testa, olhava firme para as letras, mas, cadê a
concentração?
Devia ser por causa da tal terça parte. A matemática opõe-se diametralmente à
literatura. Aliás, a matemática é metálica
e arranha o coração quando tenta
determinar a quantidade da ilusão que resta. Que coisa mais racional! E
quem já não se viu equacionado num “todo” ou num “vazio”
?
Definitivamente, ela não aprendeu a lidar com
pesos e medidas. Fora aluna
indisciplinada, derrapou na reta do conhecimento lógico e quebrou a cara porque não soube prever a
velocidade de dois corpos. Os poetas
e filósofos nunca a preveniram, só estimularam:
“Tudo vale a pena se alma não é pequena.” E agora Fernando
Pessoa, continuaria ela a lançar o
olhar de asas sobre as árvores? Continuaria a se conformar com Stendhal: "Possuir é nada,
desejar é tudo"?
Deixou que
o silêncio levemente lhe tocasse o rosto. O silêncio que já lhe tocara antes e que lhe tocará
depois. O silêncio que só fala do
silêncio. O silêncio que é belo sem
ter porquês.
É porque é. Assim é, assim
seja.
 |