LEMBRETE
Guilherme Minassa

Talvez
No caminhar o mundo
Uma estrela dourada
Tome o lugar da sua surpresa.
E,se porventura,
Ela embaralhar os reflexos,
Misturar as convicções
E rebrilhar,
Numa cor opaca,
O brilho cruel
De ausências superadas,
Não seja descortês com ela
E nem tampouco se iluda com brilhos
Que, na maioria das vezes,
Só fazem ofuscar.
 

 

 

 



POEMAS SANGUINÁRIOS 1

Guilherme Minassa


Os bárbaros do Norte voltam a atacar.
Contam com o apoio da sua sucursal européia.
(Ou serão os seus súditos europeus?)
O cinismo histórico e as conveniências do momento
Movem as ações de outros aliados.
Um palhaço árabe busca uma trágica metamorfose
que o transforme em mártir.
No palco
fogo, sangue, areia e lágrimas
Roubam a cena.
E no ar uma incômoda dúvida paira:
O que vale mais
Uma criança americana ou uma criança iraquiana?
E os bárbaros do Norte,
agora com a sensibilidade ampliada,
Continuam atacando.
 

 

 

 

 

 

E A MOÇA MORREU - TRÊS TIROS
Guilherme Minassa

E a moça morreu - três tiros.
Com os olhos abertos,
Provavelmente de pavor,
Por ter sido a eleita
Que cruzou o caminho de um infeliz.
E os responsáveis prosseguem com seus celulares,
Com seus "laptops" e com toda a parafernália tecnológica disponível.
E a moça morreu - três tiros.
Os fabricantes de armas são inocentes
E os comerciantes também.
A culpa é nossa -  otários cordeiros cordatos
De uma realidade que anuncia mortes pelos classificados,
Sem nenhuma censura.
Afinal somos os democratas da violência
E a ignorância continua campeando - agora também em inglês.

E a moça morreu - três tiros.
                            
 

 

 

 

 

 

DÚVIDAS INCHADAS

Guilherme Minassa

 

Estou ou estamos derrotados?

Fui ou fomos derrotados?

Serie ou seremos derrotados?

O inimigo é assim meio invisível mesmo, viu.

Mas sua crueldade é bem visível.

Aliás, é escancarada, desavergonhada até.

E suas vitrines são as grandes metrópoles

Que “incharam” aqui pelo Sul do Equador.

E as fábricas multinacionais de dores que criaram

Estão praticamente prontas para começarem e exportar

O cruel produto do descaso e da insensatez.

 

 

 

 

QUASE EXPLOSÃO

Guilherme Minassa

 

A PERCEPÇÃO AGUÇADA

Enche ainda mais

A alma cansada.

Tudo parece querer explodir.

A realidade desnuda de racionalidade

Aponta terríveis encruzilhadas.

Tudo parece querer explodir.

Um poeta desconhecido questiona

Um menino comum anda de skate

Uma criança nasce,

E nenhuma estrela percorre o céu.

Tudo perece querer explodir.

 

 

 

 

 

 

JANELAS

 

I

 

As janelas estão cheias

De “lá fora”

Que importa

Se  escolhi, com amor

Que quero ficar

Aqui dentro.

 

II

 

Embora ainda cheias

De “lá fora”

Transferiram as janelas do  mundo

Para as telas dos computadores.

A realidade virtual agora encobre

A realidade real...

A única esperança é que os refinados encantamentos

Possam agir sem que ninguém se incomode

Até que o plano esteja consumado.

 

III

 

A verdade é plural

E as janelas

Continuam cheias de “lá fora”

Onde as possibilidades são ilimitadas.

E  porque continuo “aqui dentro”,

Pensando se a verdade

É singular ou plural?

Agora é a mentira que se intromete no pensar.

Será ela, então, singular ou plural?

E as janelas...

 

 

 

 

 

 

MANCHAS

Guilherme Minassa

 

Tem alguma coisa muito errada.

Petróleo não pode valer mais

Que a vida de uma criança.

Fodam-se os separatistas chechenos

Foda-se o presidente russo.

Pais do mundo – de todos os credos e raças – uni-vos.

E fodam – se também todas as razões políticas e econômicas

Quando o preço a pagar é a vida de uma criança.

Porque isso

É um tiro no coração da esperança.

 

 

 

 

DE REPENTE

Guilherme Minassa

 

E de repente

“não mais que de repente”,

A vida passou.

“Carolina não viu”

Você não viu

Quase ninguém viu.

(Talvez Pablo Neruda tenha visto).

E aqueles ofegantes peitos

Parecem acenar para mim

E ninguém viu

Talvez, só eu.

 

 

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