POEMA DO MOMENTO MÓRBIDO

Paulo Monteiro

E meu pai, por onde andará o velho e meigo pai?

Só ouço a música e sinto a lembrança dos sonhos.

Onde andarão minhas pernas e meu canto?

Não quero acostumar a ser sozinho e triste.

No momento, meu violão descansa no sofá.

Minha mãe ferve o leite e as vacas secam nos campos.

Onde andarão os meus olhos, distantes como estrelas?

Onde estão os campos, o leite e minha branca mãe?

Na poesia encontro o amargo passado imensurável,

Como se minha vida existisse antes do universo nascer.

Mas sei que não é fácil existir e viver...

Mando um recado para o céu: -Um abraço, Carlitos!

A luz que a noite quer roubar permanece na lua,

Extática e pura, parece mais linda lutando.

Lutando e lutando contra a negritude da noite.

Momento mórbido deixa-me assim... bêbedo de poesia!

Paulo Monteiro

1984

 

 

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