Debalde procurar explicações
Inútil interpretar a verdade
Esta verdade que construímos
E da qual somos escravos definitivos.
Saibamos tão só que eu sou tu
E que tu vives em mim.
Teu silêncio está no meu grito
Meus nervos rubram no seu corpo
Teus olhos giram nas minhas órbitas.
Meu peito harpa no teu respirar
E teus caminhos são dados pelos meus pés.
Minhas lágrimas molham a tua face
E tuas alegrias enfeitam minha alma.
Choro as tuas dores e sofres as minhas
insônias.
Nos teus lábios moram os meus cantos
E nos meus lábios passeiam os teus sorrisos.
No meu plasma te revitalizas
E no seu cérebro está o meu pensamento.
Meu sangue ferve em tuas veias abertas
E tuas energias estão nos meus músculos
quentes.
Amas meu Deus,
Venero teus Santos.
Velas o meu adormecer
Vigio o teu despertar.
Antecipa as minhas intenções
Adivinho as tuas vontades.
No silêncio da tua voz
Está o verbo do nosso diálogo.
Estou contigo nas tuas ausências
Estás comigo nas minhas partidas
Nesta simbiose estranha
Maior que a própria vida.
Vamos rindo do tempo,
Esse escultor terrível
Que se tornou menor que a sua obra
Como um criador submisso à criatura.
Nesta transfusão de energias
Vivendo um tropismo humano
Somos a definição da unidade.
Por isso,
A vida de um morrerá na morte do outro.
A morte de um viverá na vida do outro
E assim, iremos vencendo os cansaços
Os luares e os sóis, vencendo o tédio
Os esperar úteis e inúteis.
Vencendo tudo, inclusive a nós mesmos.
Um dia será o fim de tudo
E ficará apenas a lembrança
Da história de um feitiço que o tempo não
soube desmanchar.
Porque, maiores que o próprio tempo,
Mais fortes do que a vontade e acima da
consciência
Estão os mistérios do amor e os segredos do
coração.