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MENINA Paulo Monteiro
Parte I
Como deitar em terno e humilde berço, Como beijar-te a fronte, criança... Linda criança, criança bonança, criança esperança, criança mulher! A correr atrás de borboletas azuis, pisando sobre a relva rala, Anseias os lírios do campo, as flores de maio e os girassóis dourados... Ah, menina! Menina-mulher! Sou a incerteza, És a segurança. Sou o cativo, És a liberdade. Sou pedra que cai, És pássaro que voa, voa, voa, voa, voa..... A perder-se no mar, por cansar de voar. Qual o seu desejo? Fosse o pensamento um mago Realizador de todos os seus sonhos. Fossem os seus sonhos Esclarecedores de todos meus pesadelos. Ilusão sou! Fantasia, sou! Irreal, sou! Debalde procurar entender-me, menina-mulher! Dá-me asas para que eu possa voar Por sobre esse inferno. Trevas em que vivo, luz que anseio... Caminho incerto essa estrada... Estrada sem extensão, Sem barro, sem asfalto, sem viaduto e sem acostamento... Sem ponto final! Eterna! Infinita! Brisa fina que bate em seu rosto, menina mulher, E crispa-lhe os lábios, revolve teus cabelos e beija a tua boca. Ah, mulher... Como eu gostaria de ser a brisa nesse momento!
Parte II
E as lágrimas fogem de meus olhos Como o orvalho corre pelas folhas ao amanhecer. Tua imagem toma forma em meu pensamento. Mas é estranho... Você corre para longe e chama-me... Não posso correr ao teu encontro e grito: -MULHER! Então o sol irradia mais calor, as árvores agitam-se, As flores se escondem e os pássaros fogem. A terra se agita e o eco ressoa: -mulher, lher, lher, lher.... Você reaparece, tudo se acalma. -Dá-me seus lábios mulher! E os recebo... O meu coração de poeta arde em chamas, Minhas ideais chocam-se, rasgam o céu de minha mente. Meu corpo não resiste e cede. Adormeço. Acordo sentindo o cheiro da terra, O perfume dos eucaliptos. Os primeiros raios de sol penetram por entre a densa folhagem Beijam-me o rosto e eu sussurro: - Mulher... As samambaias dançam com a brisa Numa imaginária melodia. O uirapuru canta alto, tão raro é o seu canto. É a paz da floresta, doce mulher.
PARTE III
Os ramos das árvores se curvam e tocam o solo E o meu corpo continua inerte no chão. Somente seu nome paira no ar, Apenas você toca a minh’alma E eu a recebo, eu a celebro, me levanto e volto a caminhar. Estou só, agora. Comigo apenas a lembrança do seu beijo. A companhia das montanhas surdas e brutas, trazem-me a calma. Tenho sede. Sede de água, de amor, de liberdade, da mulher!! Transpondo as montanhas, avisto um lago, Nadam sobre ele cisnes e vitórias-régias. Em trôpegos passos caminho em sua direção E como em um ritual, curvo-me para beber... Mulher... Olho para á água E vejo a tua imagem refletida em meu rosto. E você me chama com doçura: -Vem... Ah, mulher-criança, por que essa marotice? Banhamo-nos juntos, teu corpo molhado Lembrava a Vênus, linda e soberba. A gota que nascia em seus olhos e morria em sua boca Era a lágrima que se transformaria em estrela.
PARTE IV
O sol já vai beijando a linha do horizonte, ao longe... Logo estaremos sob o manto da noite, mulher. Aquela lágrima agora já é uma estrela E os raios da lua... Chegou a hora, tenho de partir, bem sabes que volto. Amanhã irei procurá-la novamente em meus sonhos, Nas flores, nos lírios e nos girassóis. Lembre-se, mulher, eu não posso ser teu. Pois sou escravo da lua, cavaleiro da noite. Bebo os raios do luar e amo a poesia. Meu destino é caminhar a procura da mulher amada. Absorvo o branco prateado da lua e beijo os rostos das crianças adormecidas. Sabes, mulher, o quanto amo a liberdade e o teu olhar. Devo partir, Tupã fez-me escravo e a poesia fez-me um anjo. E a tua lágrima que fez-se estrela, brilha em meus olhos Com a peraltice da menina-mulher. O vento sopra sacudindo nossas vestes brancas, Então eu vou... mulher-amor.
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