POEMA PARA UM NATAL DISTANTE

 

 

Haverá um Natal, irmão

em que todos saberemos que somos irmãos na Criação.

 

 

Haverá um Natal

em que as palavras terão um único sentido

e não poderão ser distorcidas

ao sabor do nosso entendimento e das conveniências.

 

 

Haverá um Natal

em que já nasceremos como borboletas conscientes de eternidade

e não como míseras lagartas, arrastando-nos na lama do egoísmo,

do efémero, da ilusão e da superficialidade.

 

 

Haverá um Dia de Natal

em que perceberemos que o caminho

é pela evolução consciente e pacífica

e nunca pela revolução anárquica e violenta,

pois “a grande chave” é mudar o coração do Homem.

 

 

Haverá, eu creio, esse dia

em que os nossos Egos estarão apaziguados

para  sentirmos que só é bom para nós o que for bom para todos,

e saberemos praticar, então,

a igualdade e a justiça possíveis nos padrões humanos.

 

 

Acredito nesse Natal

em que estaremos o tempo todo lúcidos,

sem ignorarmos o sentido transcendente da vida

e sem temermos a “morte”.

 

 

Nesse dia distante, irmãos,

nenhum sistema político ou tecnológico permitirá duvidar de Deus,

e ninguém venderá armas para matar irmãos nossos

em troca de opulência, maior rendimento “per capita”,

equilíbrio da balança de pagamentos ou satisfação egocêntrica do poder.

 

 

Nesse Natal futuro

saberemos distinguir o supérfluo do indispensável,

sem que o Marketing e a Publicidade inventem

as nossas necessidades e carências,

e sem nos anestesiarem subliminarmente com a ilusória felicidade de TER,

pois todos estaremos conscientes da importância de SER.

 

 

Haverá, sim,

um tempo sem preconceitos e “apartheids” possíveis

porque nenhum de nós desejará ser feliz

enquanto houver um irmão terreno que o não seja.

 

 

Nessa manhã luminosa

poderemos dizer que não somos iguais

na trajectória necessariamente individual da nossa caminhada eterna;

embora irmãos na grande viagem cósmica da evolução humana;

respeitando, naturalmente,

o direito de cada um singrar o seu próprio caminho,

sem o dominarmos com ideias

e sem pisarmos as flores dos seus canteiros.

 

 

Haverá, certamente,

esse tempo cristão de dignificação do Ser Humano

em que ninguém com rosto de Homem

precisará escavar no lixo da nossa indiferença a diária sobrevivência;

e nenhuma criança inventará cascas de melão nos contentores

ou restos podres do nosso egoísmo descartável

para poder sorrir o direito de existir.

 

 

Não precisaremos de jornais para sabermos

o que gostaríamos de não saber,

nem de rádio e televisão para nos embriagarem de ilusão

ou envenenarem nossa alma com a naturalidade inaceitável da miséria,

da fome, da crueldade da guerra, das catástrofes

e do apocalipse da Dignidade Humana.

 

 

Nesse Natal,

nós mesmos saberemos dizer a Verdade uns aos outros

sem a informática, a cibernética, os satélites e as parabólicas,

e SEM VERGONHA,

de rosto ao Sol.

 

 

Nessa longínqua mas possível manhã de Natal da Nova Era,

seremos capazes de colocar a imagem do Cristo

nas montras do “Merchandising” (tão ocupado com a facturação e o IVA),

e o “Sermão da Montanha”,

para nos inspirarem

a dizer ternamente as palavras do amor que ora devemos uns aos outros.

 

 

Então,

nenhuma ideologia, nenhum partido ou “slogan”

serão necessários para nos conduzirmos:

saberemos muito bem o nosso caminho de compreensão

e de fraternidade,

e nenhum calendário marcará dias de excepção ao quotidiano.

 

 

É quando haverá, irmãos,

um Planeta sem fronteiras, Nato’s e OUA’s

onde todos os passos encontrarão Homens dignos e sinceros

que não trocam o coração pela razão, a consciência pela ciência,

e que sabem que toda a tecnologia, progresso e criatividade

só valem

se servirem o Homem e a Criação.

 

 

Deus poderá ser inventado sem ridículo,

e seremos naturalmente religiosos pela compreensão da Unidade Universal

dos átomos, das células, das galáxias, dos corações Humanos,

mesmo sem imagens, sem templos, sem passadeiras de veludo,

tão obsoletos como as Bíblias, os Alcorões, os Upanishades da nossa alienação.

Porque a palavra de passe será sempre AMOR, síntese de todos os credos,

e com ela serão inúteis todas as regras, estatutos e mandamentos.

 

 

O beijo, o sorriso e o pão

serão a moeda fraternal de troca

ao natural direito de estarmos aqui,

sem a violência, a maldade e o materialismo

da Sociedade de consumo que tornou o Homem descartável.

 

 

É quando teremos confiança, conhecimento e Paz no coração

para podermos tocar uns nos outros sem medo,

(sem lepra, sem herpes, sem psoríase ou Sida)

e trocar mensagens de esperança, 

palavras de carinho e de ternura

com aqueles que cruzarem o nosso caminho.

 

 

Temos de inventar já esse tempo, irmãos,

sem moças a cantar ópera na estação do Metro a 2$50,

sem garotos sujos a vender a “EVA”, no Rossio, em vez da Escola,

sem emigrantes retornados a vender os “Autogrupos” da sua sobrevivência,

sem a menina do “Centro” a dizer  

que “só daqui a um ano é que seremos atendidos” com a miserável pensão social, rindo da nossa necessidade;

e sem a velhota esquecida no banco do Serviço de Urgência,

esperando a transfusão da esperança

e a ternura dos filhos que a esqueceram.

 

 

Temos de acreditar nesse dia e começar a construí-lo, já,

sem megalomaníacos economistas do Crescimento, da Produção, da Rendibilidade,

sem estatísticas dos salários injustos ou não pagos,

e as nossas filhas desempregadas que se tornaram “massagistas”,

sem serem contempladas pelos “ÉCUS” da CEE.

 

 

Temos de sonhar esse Natal, ó irmãos conformados,

em que não violaremos as mulheres com o nosso dinheiro masculino

porque o Amor será gratuito e natural.

É quando já não haverá “crack” nem cocaína para iludir o vazio existencial,

nem bombas de revolta pela insensibilidade do sistema;

é quando dormiremos sem a angústia dos reactores nucleares de agora

e das bombas de neutrões sofisticadas

que nos garantem o extermínio do Ser Humano, mas não da propriedade horizontal,

consentindo-nos apenas o pesadelo de existir.

 

 

Creio, irmãos, nessa Era

sem armas e exércitos

(inúteis, pois a guerra não servirá então os interesses de ninguém),

quando o ódio, a cobiça, o desejo de dominação,

terão sido banidos do nosso coração.

 

 

É o tempo em que o “auxílio”, a “concórdia, a “cooperação”

não serão palavras mentirosas

para iludir os fracos, os pobres, os indefesos e ignorantes.

É quando não precisaremos de FMI’s, de discos para a fome,

de estandartes de simulada compreensão e amizade

nem de Natais nos Hospitais para tranqüilizar a nossa consciência.

 

 

O Cristo existirá então, dentro de nós, pela primeira vez,

porque a Terra não mais será dividida em l.º, 2.º e 3.º mundos,

e porque o direito ao pão, ao sol e ao amor (sem qualquer ONU),

nascerá deveras para todos os Homens

em qualquer latitude.

 

 

Nesse amanhã distante,

não haverá Câncer, Peste Bubónica ou Sida,

nem Enfarte, Arteroesclerose e “Stress”,

porque a Natureza já não precisará corrigir o Homem,

e todos os Partidos serão Verdes.

 

 

Nesse dia de Riso, então,

já não teremos nojo de viver estes desumanos dias;

não haverá suicidas nas prisões mutilando-se ao desespero da inutilidade

nem velhos desprezados carregando a morte nas cartas de jogar

nos bancos dos jardins da Cidade indiferente,

doentes, descartados, incomunicáveis, mutilados;

nem jovens de olhos azuis vendendo as enciclopédias do desemprego,

sem destino e sem rumo,

empurrados lentamente pelo desamor da Cidade para a agulha da heroína,

na alternativa do assalto ou suicídio por falta de coerência.

 

 

Até lá, irmãos,

muitos alienados serão desumanamente operados ao cérebro

com a trepanação do nosso Prémio Nobel da Medicina

para ficarem mansos, não “chatearem” a gente,

e servirem de treino;

muitos cientistas continuarão a modificar a genética dos animais

enquanto alguns de nós derrubarão as florestas e deixarão desertos

para se encherem de dinheiro,

de Mercedes almofadados e de lindas mulheres com casacos de peles.

 

 

E os rios, o ar, a água e os alimentos

Não serão envenenados pelas grandes multinacionais,

enquanto os “Jogadores de Xadrez”

põem uma ogiva nuclear em cada canto do Tabuleiro                                                                            aproveitando a nossa distracção diária

a procurar o pão dos filhos nas calçadas quotidianas da Cidade,

vendendo artigos à comissão,

enquanto, monotonamente,

os sinos das igrejas continuam a dobrar por nós.

 

  

 

Eu creio, irmãos,

nesse Natal Verdadeiro que temos de inventar já,

URGENTEMENTE,

em que a vida seja digna de ser chamada VIDA

e o Homem digno de ser HOMEM.

Será quando as Mães não recearão gerar filhos, porque eles terão futuro,

os jovens poderão estudar, pois serão úteis à Sociedade a arranjar emprego compatível,

e os velhos não se suicidarão por lhes ter sido roubado

o horizonte que lhes resta nas fotos amareladas do passado.

 

 

Então, irmãos,

encontraremos o Cristo em cada Homem, renascido,

na nova Era da Fraternidade.

 

 

Então,

será realmente NATAL.

 

 

SERÁ, SIM, AMIGO, O NATAL, O SEU, O NOSSO,

O DOS HOMENS DE BOA VONTADE!

 

                                                                                             

Vitor Figueiredo

(Dezembro de 1987) 

 

 

 

Música - HappyChristmas - Celine Dion

Imagem - Goldy - Christmas Prayer Angel

 

(Mensagem recebida por e-mail de minha amiga Ria)

 

 

 

 

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