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Meus 61 Anos
Amanhã, dia
03, faço 61 anos e resolvi prestar homenagem às
minhas duas figuras, não tão impolutas como o adulto gostaria ou como a
criança esperava.
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Mas viventes,
carentes,
potentes,
saudosos,
amorosos,
amigos,
parentes. |
Lembro-me das máscaras
que me vi obrigado a usar para poder sobreviver dentro do mundo de
adultite das pessoas que me criaram. Regras infindas me eram ajustadas
para que eu pudesse ser compreensível, inteligível. Reprogramaram
minha infância para que eu fosse presumível, ou seja, eu teria que
pegar a doença do amadurecimento, segundo nossa cultura – se anule e siga
as regras – é assim que se vive. Isto é a adultite, a infecção da educação
adulta, e eu pedia surdamente, me criem para mim, não para os outros.
Foi quando me vesti de
palhaço. Precisava ser aceito, e sem muita compreensão do que fazia fui
vivendo meus papéis. Segui passo à passo tudo
que me foi ensinado. Apesar das dúvidas, continuava a caminhada pela vida
em direção a gloriosa passagem. Aos poucos fui contraindo a doença do
adulto e fui colocando regras em todos com quem convivi. Regras para eles
serem felizes? Não! Regras para que eu me sentisse mais seguro, para que
eu tivesse certeza de que estava sendo um pai perfeito, um ótimo marido,
um fabuloso irmão, e na febre alta da enfermidade da adultite, castiguei,
puni. Afinal, as regras não estavam sendo cumpridas e olhem, as regras nem
eram minhas, apenas me foram enfiadas goela
abaixo e eu agora já queria ser o dono delas. E o tempo foi branqueando os
cabelos, cinzelando rugas aqui e ali. Um belo dia,
fazendo a barba, vi meu filho olhando e querendo saber quando que a
barba dele iria crescer, e perguntei: Porque você quer ter barba, é tão
chato fazer barba todo dia!
- Ah pai, quero crescer
rápido ser criança é ruim. Ele havia falado a
frase que tanto eu havia falado. Vi nitidamente meu filho fantasiado de
palhaço para agradar aos outros e poder sobreviver, mas ao voltar meus
olhos para o espelho me vi também vestido de palhaço. Apesar de estar
adulto, não havia trocado a indumentária, não havia retirado as máscaras.
Chorei, não como
criança, mas como um adulto que falhou. Ao invés de dar amor dei regras
Eu não havia permitido
que meus filhos fossem eles mesmos e sim aquilo que eu achava que seria
melhor para eles. Eu havia cometido o mesmo pecado que cometeram comigo.
Retornei a imagem do
espelho e em poucos segundos de observação percebi que me vestia de
palhaço para fazer os outros felizes e, olhando meio de soslaio, senti que
eu fazendo os outros felizes ou seguros me
fazendo previsível, apenas queria ver como era ser feliz, já que eu não
soubera, até aquele instante, o que era a verdadeira felicidade de ser eu
mesmo. Foi quando comecei a mudar a indumentária e foi
a primeira vez que me senti um aprendiz e vi meu filho o meu
primeiro mestre.
Hoje, o velho aprendiz,
já sabe conviver, com a alegria de ser ele mesmo, não que nas pérolas de
meu colar de felicidades não exista as perolas mal criadas, defeituosas.
Mas este velho aprendeu a se auto-perdoar. Ao
longo dos anos venho dando amor e escutando o que aquele pequeno palhaço
sempre falou e eu não escutava. Da minha infância, tem vindo todos os
ensinamentos que venho aprendendo e aos poucos praticando e passando
adiante.
Só uma criança sadia
pode se transformar em um adulto sem sofrer de adultite.
O olhar sério do Velho
Aprendiz não esta virado para o além ou para um horizonte longínquo, mas
sim, compenetrado nos ensinamentos que a criança continua passando.
Hoje, vejo meus filhos
felizes e também me vejo dançando minha própria música, aquela que vem
direto do coração.
Valeu a pena
a mudança meu compromisso com a vida ficou mais
leve, mais suave e a vida começou a fazer sentido.
Amanhã faço 61 anos e
quero repartir a alegria, de estar no caminho de ser eu mesmo, com todos
vocês.
Se me falta menos tempo
de vida do que me faltava quero dedicar este pouco tempo
a fé, ao amor, a alegria.
Por fim, dou meus
parabéns a criança (ao palhaço) que nunca deixou de insistir em ensinar ao
velho, o caminho da felicidade.
Agradeço também a todos
vocês que têm sido meus mestres.
Eu sou Jorge Reigada (O
Velho Aprendiz).
Rio, 02 de outubro
de 2003
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