Divagações Semafóricas
Mauricio Santanelli
Quem é esse menino que me aborda no semáforo
cujo rosto fica à altura do vidro lateral...
e que me diz: "dá uma moedinha doutor?"
Quem é esse menino cujo olhar já não tem mais nenhum
brilho, não tem esperanças...nem medos?
Quem é esse menino que se acostumou a enfrentar
olhares de desprezo seguidos de um não olhar ?
Quantas vezes por dia será que esse menino recebe
apenas um gesto negativo com o dedo ou a cabeça?
Quantas frases ríspidas será que esse
menino escuta ao longo de um só dia?
Por dia quantos vidros são erguidos na face desse
menino, quando ele se aproxima?
Qual será a idade desse menino? nove? talvez dez...
embora pela compleição física aparente no máximo
seis...
Será que sabe ler e escrever esse menino?
Prestando atenção na face desse menino percebi que
ela tem rugas de alguém centenário...
Alguém de quem a vida já retirou todo e
qualquer direito de fazer planos, de projetar
um amanhã, ele não tem direito de ter sonhos...
Olho nos olhos desse menino com uma leve doçura
Esboço um ligeiro sorriso, não falo nada...apenas
ofereço a esse menino um olhar e um
tímido sorriso... estou sem moedas...
E
tenho a leve impressão que vi brotar um tênue
brilho nos olhos daquele menino...
Um último pensamento...quantos irmãos será que tem
aquele menino que tem os pés descalços, que tem a
roupa rasgada, que tem a cara suja?
Bem... o semáforo ficou verde para mim agora...
É
hora de encerrar essas divagações semafóricas
E tratar de permitir que minha vida siga em frente..
Pelo espelho retrovisor vejo aquele menino pardo,
brasileiro, ficar lá prá trás. Cada vez
menorzinho...
A
B A N D O N A D O !!!!