Ao olhar profundo daquelas arvores
Maiores que a própria alma,
Mais velhas que o tempo em que nasci
Revejo em cada folha perene
Quanto caduco somos
Quantos sonhos perdemos
Desistência na coragem.
Naquele parque, caminhos pisados em terra
ocre,
Flores que renascem a cada tempo,
Infância perdida entre uma bola de trapos
E o jogo de pião
Adolescência amada, utopias delirantes,
Em sonhos ainda presentes,
Entre amuos, olhares comprometidos,
Ou simples palavras,
Bagas nunca colhidas.
Ainda procuro por detrás de cada tronco
Aquele amigo que um dia vi partir,
Mas que recuso,
Entre os arbustos, naquele caleidoscópio
de folhas,
Vidas, histórias, brincadeiras de um
passado presente,
Ou nas pétalas de cada flor, um nome, uma
palavra,
Ou simplesmente o sentido a tomar,
Deixando-me abraçar por aquele parque
frondoso
Berço de quem sou,
Deixando que assume em mim a melancolia
E a vontade incerta de gritar,
Chorando,
Apenas porque cresci com pressa e sem
lamentos.
Hoje, mesmo despertando novas paixões,
Reside em mim aquele parque
Amigos de um destino,
Encanto profundo, charme que desponta,
Levando-me a pisar a terra ocre
Do meu caminho,
E saudar em silêncio,
As mortalhas resistentes,
As vidas personificadas nas raízes,
E com a voz embargada,
Vou dizendo – “Olá...ainda aqui estou”.
Sabendo que no dia seguinte
Não voltarei.
Luis Paiva Adães
15/07/04
adaes.luis@sapo.pt