UM GRITO NA IMAGINAÇÃO

 

Sim, eu sei,

Como é fácil imaginar

O vôo da águia no alto do Picachu

E partir

Como é doce 

Sentir a maresia do Mar do Norte

Escutar o sussurro das ondas

E navegar

Ouvir o velho do Everest

O batimento das asas do colibri

E sorrir

Olhar fixando a semente

Imaginando o fruto silvestre

Do meu querer.

 

Sim, eu sei tudo isso,

Ou talvez mais.

Sei que imaginar

Dá vida

Sonhar

Dá alento

Rir

É um presente

Deleitado com prazer.

 

Mas, nas entrelinhas da imaginação,

Reside a crueldade da dor,

Realidade do pedinte de rua,

Daquela criança, tão bela,

Feliz com um naco de pão,

Imaginando ser um doce.

Da pobre mãe, viúva da riqueza,

Do Zé Ninguém, nado no trabalho,

Morto no quotidiano,

Na bola de farrapos

Jogada na copa da imaginação.

 

Não,

Não quero mais esta imaginação,

Recuso o sonho,

Necessito gritar

-  “Imaginem mas façam”

Não deixem a imaginação morrer

Na hipocrisia do silêncio

Não deixem que o bicho da seda vá

Sem nascer a borboleta

Não deixem que a imaginação

Se cale

E gritem comigo.

 

Luis Paiva Adães

25/08/04

Portugal

adães.Luis@sapo.pt

 

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