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Luís Paiva Adães

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Correspondência recebida do Autor

 

..."Terei todo o gosto em colaborar consigo, até porque não o faço por interesses comerciais, mas porque adoro escrever.

Sou português, escrevo desde 1974.

Sou Advogado, tenho 44 anos. Sou casado com uma gaúcha, e sou feliz.

Vivi no RS durante um ano, infelizmente não deu certo por motivos profissionais.

Perguntará, mas o que fez uma pessoa, advogada há 18 anos em Portugal vir para o Brasil? Duas respostas simples:

1ª O AMOR - por minha esposa, ela queria estar junto com a sua família, não deu certo, paciência, voltamos para Portugal.

 2º Esse país merece ter bons profissionais, vocês são um grande povo e têm um grande coração.

Mais dados?

Falo e escrevo com fluência Francês e Inglês e Espanhol.

2 anos de filosofia, 2 anos de Psicologia.

Nível 2 em Reiki.

Bem, fico por aqui, vai junto um pequeno conto de todos os dias....

Um Feliz Natal

 

' A todas as amizades que fiz no Brasil, seja no Rio, Assis, seja em S. Paulo, Angela, e no RS, Joliseu e muitos outros, sem esquecer  nunca os meus sogros , mãe Nilda e pai Regis e minhas cunhadas adoradas, Sónia e Sandra - Tenho muitas saudades vossas e a vós dedico todas as minhas palavras . '

 

Luis Paiva Adães"

(19/12/2003)

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 Encontrava-me sedentariamente interessado nos formulários desinteressantes dos candidatos ao novo emprego já preenchido no dia em que foi publicado o anuncio no jornal local, quando escuto aquela mais que repetida e temerosa frase:- Posso ?

Levantei um enfadonho olhar como se o ponteiro do relógio ainda demorasse a despertar a hora da saída e vislumbro um velho senhor - " Concerteza não se vem candidatar" - pensei -"Não idade para isso...Sei lá! Afinal é só um lugar para arrumador de carros".

-O que pretende? Perguntei adivinhando a resposta com o formulário a pronto.

-Quero candidatar-me, posso?

- Claro que sim, todos podem, para este cargo não limite de inscrições, só preciso dos seus dados pessoais.

Deseducadamente nem mandei o velho homem sentar, se bem que fui fuzilado pelo desesrespeito á velhice, continuando olhar o ponteiro teimosamente parada nas cinco para as 18.

-Só temos de preencher este formulário, coisa simples - o homem lá continuava, em pé, alto, forte, face bondosa, olhar magnifico, roupa castanha, cor da idade.

-Tudo bem, eu sei como funcionam essas coisas simples, as vossas regras, afinal todos os anos percorro este vosso mundo de lés a lés em apenas 24 horas.

Mais um crédulo sonhador,um viajante no tempo das sarjetas de rua, pensei admirado pela sua imponência.

-Nome, idade, estado, morada e contacto? Disparei mecanicamente, já o fizera centenas de vezes num só dia sem olhar a quem.

-Nicolau, casado com a infância, resido em alguns o ano inteiro e noutros só na véspera...contacto? Não tenho, nem telefone, nem fax, muito menos recebo e-mails, só recebo cartas ou postais, sempre pedindo algo, umas possíveis outras normais e muitas só porque vocês não querem ter, nem precisavam pedir.

-Idade? Que raio de conversa furada e o ponteiro parado. Será falta de manutenção? Só me faltava fazer hora extra.

-A que você quiser, já me deram 800, outros mais e menos....

-Não parece ter mais de 80, deve querer dizer, não é?

- Talvez, se isso o conforta, afinal a idade é sempre importante, nem que só por ter um ano a mais tenha de passar fome, não ter nem para os filhos...é assim que tratam a dignidade humana, neste mundo civilizado?

-Pois, pois...experiência profissional?

-Nenhuma ou muita, conforme os vossos critérios, mas resumidamente sou trabalhador e empresário.

-Empresário - sarcasticamente-E quer ser arrumador de carros?

-Sabe, afinal uns trocos a mais sempre fazem a diferença, nem que seja um chocolate no acordar de uma criança.

-E já agora -trocista e ironicamente sentindo-me figurante interessado -como empresário tem funcionários?

- Colaboradores? Sim, não tão interessados no ponteiro do relógio como você.

Esta ironia doeu, mas querendo dar troco como zeloso trabalhador retorqui:

-Quantos, nomes, o que fazem?

- Alguns, mas os principais tem nomes vulgares, são o Amizade, o Amor, o Liberdade e o Paz. O que fazem? Bem...-a sua tristeza me angustiou - neste momento nada, isto é, não que trabalho não falte e vontade também, mas os clientes não são muito fieis, estáveis...crentes...mas

Fiquei inquieto, incomodo, espirito transtornado, nem olhei mais o relógio, as mãos suando tremiam...medo das obvias verdades...mesmo assim queria explicações, mesmo que duras.

-Mas o que fazem então? Também querem ser arrumadores de carros - bem me tentava salvar com a ironia.

-Não, querem ser arrumadores do mundo - mereci a resposta.

-Eu explico, o Amizade já partiu muitas vezes por essa estrada fora, sempre de mãos dadas com o Amor, mas sempre voltam tristonhos, pois tem sempre a esperança de enviar o Paz. O Liberdade partiu vezes sem conta, vagueou por sonhos, inspirou poetas e até políticos e quando pensava ser a vez do Paz, chamava o Amor e o Amizade. Tem sido sempre assim....

- Quer dizer que o Paz nunca faz nada?

- Nada, não direi isso, ele vai, tenta o que é mais nobre, não desiste, não recua, tenta e tentará sempre.

Silenciei-me, olhei o formulário, este continuava incognitamente em branco.

O velho senhor olhou, sorriu e com aquele penetrante olhar perguntou:

-Lembra-se daquele senhor, pobre e muito puro?

- Não sei bem....

-Seu nome é José e a esposa é Maria...

Rebusquei o amontoado doa papeis , quando fui interrompido.

-Não procure muito, ainda cá não esteve, eles chegarão de Natal.

-Sim, e depois?

- Dê-lhe o emprego a eles, ela está gravida .Afinal quem mexe nesses papeis é você e uma batota piedosa não é pecado.

-E o senhor?

-Eu?Tenho de ir, o Amor, o Amizade, o Liberdade e o Paz esperam-me, ainda temos muito que fazer...acho que o Tolerância vai trabalhar mais que o que pensa.

-Posso-lhe fazer uma ultima pergunta?

-Sim.

-Veste sempre esse manto castanho?

-Já me vestiram de vermelho, modas...mas prefiro o original...Já agora, todos os anos aquele ponteiro para sempre nas cinco para as 18, Festas Felizes, é que já são meia noite.

 

Luís Paiva Adães

02/12/2003

 

 

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