Escravo da Madrugada

 

Agasalho tempestivo mergulhado no nevoeiro feroz

Caminhava lentamente, rosto faminto, corpo gélido,

Dor de alma dormente, naquele braços truculentos,

Feitos na labuta árdua, na dor imensa,

Na madrugada dos dias, nas tempestades mais quentes

Ou nas noites mais sombrias.

 

Eram ordens sem limites, destemperos da agonia,

Eram lamurias esquecidas, horas incontornáveis,

Ofensas diárias no corpo amarguradas,

A que tudo se dobrava, mesma na calçada adormecida

Onde repousa a minutos a esperança nunca perdida.

 

E nos intervalos do tempo, buscava na algibeira,

Daquela calça rasgada, a fotografia recente,

Do rebento que o esperava, sem reclamar de um aumento,

Mas de uma brincadeira, magia de mãos calejadas,

Sem medo do corpo sujo batalhando contra o sono,

Sonho adormecido numa cadeira de balouço

No alpendre da saudade.

 

E no peito, mil beijos guardados em cofre de ouro,

Reserva de um sorriso, amarguras esquecidas,

Fazendo das madrugadas do regresso

O encanto prolongado de um luxo de férias,

Trajando distancias, caronas no arrepio da bagagem,

Trauteando o preço da passagem

Para o amanhecer de quem o amava.

 

Luis Paiva Adães

22/11/04

adaes.luis@sapo.pt

 

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