A LIBERTAÇÃO DO EU
Quantas vezes nos questionamos, como somos, quem somos, mas essencialmente, do que somos capazes. Por tendência, mas não por defeito, tendemos a viver, ávida, rapidamente, gozar todos os sentidos, experiências, paladares, odores mais ou menos ferozes, como se a adrenalina seja um antídoto que se vai esgotar e que temos de sorver instantaneamente. Desta forma construímos quase sempre uma casa pelo telhado, com telhas de vidro, diga-se, esquecemos alicerces, fundamentos, ou seja, as bases de um nascimento – Fé – Amor – Liberdade. Ou seja corremos quase sempre num sentido só, oposto ao nosso “eu”, nunca temos tempo para nada, seja para o lar, seja para os amigos, arranjamos justificações, tanto absurdas como inócuas, criamos conflitos como se dele partilhássemos a nossa melhor face. E o fazemos tão depressa que pisamos o nosso futuro sem o ver, sentir, querer; desprezamos, alheamo-nos, consideramo-nos os seres maiores, os sabichões, enciclopédias ambulantes, adolescência patética, corroído pelo stress prematuro, completamente desactualizados, ignorantes da palavra. Até que um dia, seja por acidente ou incidente, ou até em consciência, abrandamos, questionamos, criamos a introspecção como se fossemos o criador da lâmpada, e na verdade começam-se abrir horizontes, surge a luz da espiritualidade, assumimos um caminho a percorrer sem sabermos nem quando ou como acaba. Desejamos a paternidade, como um todo, tudo reinventamos, tudo é nosso, porque só nós criamos. É a tentação de sermos “únicos”, tudo que fazemos é ótimo ou péssimo, o suficiente não chega, é a decepção ou a euforia, as extremidades de um só nó, até que caídos nos braços de Morfeu acordamos para a contemplação, o espírito da montanha invade todos os nossos complexos, aceitamos calmarias de mares revoltos, caçamos musicas como se cavássemos até ao infinito, deixamos voar as letras;desafiamos a gênesis, aceitamos a regra de que os números nada valem sem nós, que os verdadeiros valores sempre estiveram á nossa porta, deixamo-nos finalmente enredar na mão magnificente do Ser Superior, enlevados apenas pelo nosso querer, a “Meditação do Nunca”, se assim o quiserem. Poderemos já ter encontrado o Amor e a Fé? Em principio é mais que provável que sim. E a Liberdade? Bem mais difícil. A liberdade assenta num elemento muito além da capacidade, inteligência ou experiência – A Criatividade. Normalmente como na adolescência ultrapassamos a prosa, somamos palavras, metáforas mais ou menos conseguidos, um “dejá vu”, parábolas mónotopaicas, rimas dedilhadas numa palavra só – Poemas. Só que a Criatividade não se confunde com intelectualidade, sabedoria, matérias experimentadas, surrealismos idiotas a que estamos agarrados pelos trilhos que pisamos até então. Criatividade não se consubstancia naquilo a que apelidamos, chamamos, monologamos se é bom ou não, nem se restringe a regras, refrões, temas mais ou menos elaborados ou pré-definidos. A criatividade assenta na inocência, a pureza não ficcionada dos sentidos. A Criatividade reside nas nossas raízes, vivências anteriores, visualização de uma paz interior, desgarramento de conflitos, influências. A Criatividade está por todo o lado, no ar, no homem da montanha, no vôo da águia, nas ondas do mar, no dialogo entre Lua e Mar, entre Sol e a Sombra, entre as Estrelas e a Galáxia, nas Raízes que aplaudem o nascimento do fruto, resumido na inspiração que nos murmuram. Se aceitarmos ouvir sem ver, olhar e acreditar, despirmo-nos de vaidades exteriores, deixarmos a ténua linha das trevas, deixando-nos proteger, ainda que seja por uma tênue LUZ e por muitos instantes, conseguimos. Ao aceitarmos, conseguimos então escrever o mais lindo poema, e mesmo que o não consigamos,pelo menos, tentar fazer da nossa vida o mais lindo poema – A Libertação do Eu. Até lá, muito caminho a percorrer, vencer frustrações, a adversidade dos que ainda correm, a mal querência, o egoísmo,o ciúme, a desavença, a descrença e até, ou principalmente, os conflitos interiores. Meras batalhas de uma guerra já vencida, porque fomos abraçados, ainda que ao de leve, pela Criatividade:harmonizados com a Natureza, com o ritmo natural do Universo, caminhos da Sabedoria, reforçados na nossa energia, o Ki, criativa, bem sucedida porque acreditamos no Ser Superior, como um todo. A Libertação do Eu,parece assim paradoxal, alia lógica com ilógica, um mistério, uma magia, onde o discernimento se resume á Meditação, em que seja o que se faça, se feito com alegria e com Amor, é Criativo. Mas se isto tudo nos confunde, é uma tolice; todos os seres humanos nascem criadores, observem as crianças; Já viram algum adulto falar com o seu ursinho, o seu melhor amigo? Eu não, nas crianças sim, simplesmente porque são criativas e acreditam no sorriso do coração. E quando começarmos também a acreditar então a Libertação do Eu se completa, no ciclo do renascimento, no encontro a duas vozes. Luis Paiva Adães 03/08/04
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