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POEMAS
A.IDENTIDADE
Sim! Respondo suas perguntas: Na minha carteirinha constam versos mal escritos, uma oração de São Expedito, vários telefones riscados. e, por culpa sua já não consta o seu novo número. Consta ainda, mesmo que temporário um endereço em Santa Teresa.
Por acaso, ou talvez desencontro consta ainda o nome de quem você ama.
Não! Não sou sócio de clube algum. Não bebo cerveja, nem freqüento bares muito menos, por antiga opção, faço horas extras nestes lugares. Não gosto de patota, muito menos de patotinha. Dos bares, de alguns amigos, ainda guardo carinho. Os outros já me esqueceram, pouco me importa: a amizade dos bêbados sempre foi mesmo meio torta.
Solitário, em outras paragens, ainda busco o meu caminho.
Outrora já tive a vaidade de não ter vaidade. Hoje, o que me falta é a auto-estima. Já não carrego meus castigos em minha alma, nela cabe apenas minha solidão entre os homens, minha solidariedade, minha ânsia de amar.
Minhas riquezas são invisíveis ninguém as querem. Não são visíveis nem mesmo palpáveis.
Não sou escudeiro de ninguém. Como Sancho, de escudo só tenho a pança. Meu Quixote morreu antes de atravessar a Mancha. Minha poesia se apagou antes de ser lida. O que busco não sei.
Nem sonho mais em ser feliz. Sei que a vida é um raio e que a morte é por um triz.
Se sou infeliz?
Ninguém enxerga a alma de um palhaço. Existo. O tempo é minha alegria, meu encanto, o meu espaço.
João Rafael Picardi Neto
PROCURA
Cavaleiro sem cavalo Campeio a paz... Vagueio. Vaqueiro, nos pastos da vida procuro reses desgarradas. Conheço o aboio mas, irritados, os homens quebraram meu berrante. Armeiro sem arma, procuro apenas um cantil água simples Pra minha sede de amar. Poeta sem rima ordeno palavras. Não sei da música do ritmo, da métrica, não faço canções.
Cavaleiro sem cavalo campeio a paz. Vagueio. Para trás ficaram as pastagens, o azul, o riacho, a lua... os luares. Muitas estradas já enfrentei. Se há paz? Passou por mim no descuido não a vi talvez nem reparei. Cavaleiro sem cavalo não sou amigo da princesa nem do príncipe ou da rainha Nem mesmo do rei. No meu tabuleiro Sempre jogou só o peão. O xeque e o mate? Nunca provei. Cavaleiro sem cavalo campeio a paz vagueio... Para trás só ficaram lembranças. Mas, pasmem! Na réstia do dia, antes do por-do-sol me encho de esperanças. E suave se torna meu caminhar. cavaleiro sem cavalo Tenho pelo menos meu andar
João Rafael Picardi
AMIGA,
João Rafael Picardi
Formatar teu rosto
esculpido na pedra da noite.
Com faca, machado, lápis, pincel ou
foice
formatar tua face,
teu riso, teu cantar, teu suspiro.
Formatar.
Tecer na memória nossos memoráveis
desencontros.
Juntar fiapos do tempo e reinventar
nossa história.
Sem tempo,
Encontrar-te,
Por acaso,
Em outro tempo,
Na dimensão dos sonhos.
Perceber que passamos,
que tudo passa.
Descobrir,
com ternura,
que a Eternidade
pode estar numa murcha e seca flor
de uma antiga e eterna primavera.
Formato-te na grande noite de Deus.
Meu Formato é um até breve.
Não se Formata o Adeus.
João Rafael Picardi Neto
Por afeto, confiança, carinho,
solidão e até mesmo ternura,
lhe dei algo sagrado.
Algo simples,
como meu riso maroto,
minha dança estranha,
o meu olhar cansado.
Distribui também meus brinquedos
minha enferrujada armadura,
minhas coletadas pedrinhas,
até meu jogo de armar.
Nada lhe pedi em troca.
Nem mesmo as bolinhas de gude,
tesouros escondidos do passado.
Quero somente, se possível,
que meus pequeninos segredos
guardados sejam
num pequeno baú,
como o de minha avó Sanica,
onde com carinho e estranho afeto
guardava os presentes
para a sua grande eternidade.
Eternidade comprometida com o Amor.
João Rafael Picardi Neto
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