|
CRÔNICAS
Classificado de Primavera
Terça-feira, setembro de 2004
Por João Rafael Picardi Neto (* )
Tem traços de uma oriental. Se parece com aquelas indianas que ilustravam o Atlas de geografia, no tempo do eu-menino. Sara! Isso mesmo! Se parece com a imagem de Santa Sara, Rainha dos Ciganos.
Idade? Se tem vinte seis anos é muito. Quando sorri parece mais nova, mas quando diz como enfrenta o mundo fica séria, mais velha, mais adulta.
Até pouco tempo morava numa mansão, um grande castelo que existe ali, no bairro Floresta. Mudou recentemente para um barracão, ainda sem verde, sem plantinhas, sem flores, no bairro Santa Teresa.
Está organizando a vida, me disse ela. Talvez deslumbrado pelo inusitado encontro, esqueci seu nome. Creio ser Flaviana. Mas pode ser Júlia, Anajúlia, Juliana. Qualquer um desses nomes lhe vai bem.
Vejam só!
Conversou comigo como se eu fosse um velho conhecido. Dou-me alguns minutos de sua atenção, quando eu, cansado e solitário, participava de uma missa num domingo de Primavera.
Acreditem! Não foi um sonho nem mesmo um trecho de "Noites Brancas", do torturado escritor russo. Era de carne e osso e me sorriu um riso bonito, um daqueles sorrisos que só recebemos quando ainda somos jovens e ainda desconhecemos a importância de um riso cristalino.
Um riso que marcou minhas 53 primaveras pelo planeta Terra. Foi no dia 26 de setembro próximo passado e quase, por um triz, sem perceber, ia passando de liso o meu aniversário.
Caro leitor,
Se você encontrar tal moça, se ela lhe sorri, se usar uma sandália, se falar da beleza de todos os cães do mundo, se seu nome for Anajúlia, Flaviana, Juliana ou qualquer coisa parecida, diga a ela que, em 2004, se assim quiser o Bom Deus, eu espero vê-la mais uma vez, no último banco de uma igreja, num domingo de Primavera.
O Natal do Concreto
João Rafael Picardi
Neto (*)
Sempre sonhei
em escrever um livro. Confesso que tentei fazê-lo em um
caderno de mola, espiral. Mas, na medida em que ia
escrevendo, crescia em mim uma angústia: já existiam
milhares, milhões de livros escritos no mundo. Só pelas
minhas mãos passaram centenas ou - quem sabe? - milhares.
Para que mais um livro? Só pela vaidade de tê-lo escrito,
com um prefácio de uma pessoa famosa ou conhecida nos meios
literários? Ou apenas para fazer terapia gratuita com quem
não tem nada a ver com a minha trajetória por este mundo?
Fui,
dia-a-dia, arrancando as páginas manuscritas e, num mês de
agosto, quando uma branca e cheia lua iluminava uma praia,
em Itaúnas, Norte do Espírito Santo, descobri que o livro
tinha apenas uma página. Nele estava escrita apenas uma
palavra: FIM.
Deixei para sempre o meu grande sonho. E com isso lucraram
meus poucos amigos, que inevitavelmente se sentiriam
obrigados a comparecer na noite de autógrafos. Tentei
poemas, prosas, crônicas e outros estilos. Tudo uma
inutilidade, coisas de terceira categoria que foram parar na
cesta de lixo.
Mas,
sempre que se aproxima o Natal me volta a tentação. Por que
não escrever alguma coisa sobre ele, o objeto de minha
grande e primeira paixão?
É que um dia amei, de forma definitiva um cavalo. Não um cavalo qualquer. Um cavalo queimado, manco de uma perna, feio, teimoso e de olhar triste, quase humano. E esse cavalo, ou a lembrança dele, me traz, inevitavelmente, a lembrança de um Natal.
Foi
com Concreto que aprendi minhas primeiras lições de
humildade e teimosia. Ele nos chegou um dia do Chapadão do
Zagaia, trazendo em seu lombo meu padrinho Zé Xico. Era,
finalmente, meu tão prometido presente de tantos
aniversários e Natais. Mas, menino naquela época não tinha
direitos e o meu Concreto teve pouco tempo de ser meu.
Éramos vinte filhos de uma só mãe e aos sete anos já
começávamos a trabalhar. Minhas tarefas, quando Concreto
chegou, era buscar o leite na madrugada, ir ao Corguinho da
Mina encher a talha, cuidar da horta na parte de cima, além,
é lógico, de ir para o grupo escolar. Não tinha idade ainda
para trabalhar na olaria, onde meu pai arrumou um emprego
para o meu Concreto.
Manso e humilde de coração, mas teimoso como uma mula, Concreto, acostumado com a liberdade do Chapadão do Zagaia, tão logo chegou em minha terra, quebrou uma perna ao tentar atravessar um mata-burro. Aprendeu o que não devia. Ficou manco, mas lendário: para ele não existiam cercas nem mata-burros. Sabedoria eqüina que deu muita dor de cabeça a meu pai, prefeito de muitos mandatos naquela pequenina cidade perdida aos pés da Serra da Canastra.
Com seu antolho, amarrado no pontal do varal, ele girava o dia inteiro em torno da pesada pipa, onde era amassado o barro que viraria tijolo e telhas, na única olaria existente num círculo de mais de 500 quilômetros redondos. A olaria ficava ali, no pastinho do Vilico, que mais tarde passou a ser chamado Pasto do Matadouro, perto do Poço das Traíras, às margens do Rio do Peixe e a 40 metros do Corguinho do Imbiri.
Aos
nove anos adquiri o direito de ir trabalhar na olaria,
passando minhas antigas tarefas para meu irmão mais novo,
tão franzino que até hoje não sei como dava conta de buscar
dez litros de leite, no Retiro do Tio Juca, enfrentando
vacas paridas e o frio orvalho da madrugada. Meu novo
emprego não era tão difícil assim: eu virava as formas,
empilhava lenha e, às 10 horas, subia uma das duas únicas
avenidas da cidade, para buscar a bóia para os camaradas.
Às
noites, fugia caladinho, mesmo sabendo da surra que viria
depois. Fugia só para conviver com meu Concreto, que, para
abrigar do frio, depois de pastar em círculo, ia sempre se
encostar junto à caieira, onde queimávamos os tijolos e as
telhas. Às vezes, à luz da lua, mesmo sem sela, costumava
montá-lo e, com uma latinha de minhoca e uma vara, descia as
margens do Rio do Peixe e levava para casa uma fieira de
bagres, timburés, mandis e lambaris. Fugas que sempre
terminavam em severos castigos de Dona Zezé, minha franzina
e gigantesca mãe, que conseguiu educar seus vinte filhos
mais uns quinze netos utilizando-se da ternura e do chicote.
Mas o espaço aqui é curto
para uma longa história de amor. Curto, como curta foi a
vida de Concreto. O jeito de pastar em círculos, que ele
pegou de tanto girar em torno da pipa e a mania de esquentar
o já cansado corpo no calor da caieira abreviaram sua
passagem pelo planeta Terra. Quando adoeceu definitivamente,
meu pai tomou a decisão de matá-lo, um gesto de humanidade,
que se aplica sempre aos cavalos doentes.
Estávamos
em dezembro, beirando o Natal.
Nunca me esqueci daquela longa jornada. Na noite do dia 24
de dezembro de 1960, puxando o meu Concreto com um cabresto
de embira, subi a comprida e estreita estrada pedregosa que
hoje dá acesso ao Parque Nacional da Serra da Canastra.
Havia uma branca e fria lua no céu. Os quero-queros e as
curicacas cantavam à noite, quem sabe saudando meu gesto...
Depois de abraçá-lo, com os meus olhos cheios de lágrimas,
eu, um menino solitário e com medo, perdido no alto de um
platô, ganhei ou me dei o maior presente de Natal de minha
vida. Soltei Concreto na vastidão do mundo de onde viera.
Antes de morrer – que sabe? - se tivesse forças,
atravessaria a nascente do São rio Francisco e - quem sabe?
- Com a ajuda de um anjo, poderia atingir São João Batista,
a pequena vila de onde viera.
Quando cheguei em casa,
Cristo já tinha nascido. Duro foi o castigo, mas a vara de
marmelo doeu pouco, pouco mesmo. Quem sabe era apenas o meu
cansaço ou o cansaço e uma grande ternura de uma velha e
cansada mãe?
Com
um disfarçado sorriso atravessei o grande corredor de tábuas
corridas em direção ao “quarto dos meninos”. Adormeci e
sonhei. No meu sonho vi Concreto entrando na única rua que
formava a vila de São João Batista. Concreto já não era
manco. Marchava. Marchava e carregava, num arreio de prata,
o Menino Jesus que já era um garotinho esperto.
(*) João Rafael é
jornalista e nasceu em São Roque de Minas no tempo em que a
cidade ainda tinha o nome de Guia Lopes.
~ Recomendar ~
Copyright © 2003- Flori Jane WebPage
Todos os Direitos
Reservados
|