Pai, lembrar de você é lembrar da minha infância,
adolescência. Lembrar dos passeios feitos em família, todos os domingos à noite,
das missas assistidas, do coreto na praça, da sorveteria, da pipoca. É
recordá-lo feliz ao nosso lado.
É lembrar de suas férias, de nossas férias. Das
viagens que fazíamos de trem, todos os anos. É lembrar das visitas que fazíamos
na casa dos parentes e dos que recebíamos em casa. É lembrar das festas de final
de ano, dos brinquedos ganhos. As festas de formaturas.
Pai, lembrar de você é lembrar de minha saída de
Bebedouro e ida para a cidade de São Paulo para cursar a faculdade de Belas
Artes, o adeus definitivo à infância, à adolescência e ao aconchego do meu lar.
É lembrar de sua trajetória junto a mim até o altar, do dia do meu casamento. É
lembrar de sua alegria no nascimento de meus filhos.
O senhor nunca desistiu de me ensinar o bem. Insistiu
com amor, com energia, através de exemplos. Pai, você me presenteou com a
virtude do equilíbrio, com a construção da Paz. O senhor nunca colocou em minha
boca palavras de separação, de ódio, de desajustes. Ensinou-me o sentido bom da
vida e aprendi a ser sábia.
Pai, o senhor praticou a justiça, o direito e eu
jamais abandonarei o caminho da retidão. Ensinou-me o significado da
responsabilidade, da esperança de uma vida digna. Suas esperanças não foram
colocadas nas vaidades e riquezas, mas na prática da Palavra do Senhor e
gerou-me filha de Deus. Fez questão de mostrar-me a perfeita imagem do PAI de
todos nós. Pai, suas atitudes serão sempre louvadas. O senhor será eternamente
bendito por ter lutado com todas as suas qualidades na minha formação.
Lembrar de você me faz remeter às várias vezes que o
acompanhei às consultas médicas e, na volta, a nossa "paradinha" para o
cafezinho na loja da Kopenhagem. E com paciência ouvia-o novamente sobre
suas dúvidas, dores, angustias... eram sempre os mesmos assuntos e eu não o
interrompia, escutava-o mais uma vez.
Pai, o senhor partiu sem que eu tivesse "tempo" de lhe
agradecer por tudo, pela vida, pelos ensinamentos e exemplos. Pai, faltou
declarar-lhe o meu amor em voz alta para que ouvisse. Faltou-me
"coragem". A esperança de ter mais oportunidades para fazê-lo, contribuiu e
atrapalhou nesta falta.
É claro em minha mente o meu último momento com o
senhor na UTI do hospital e, como ministra da Eucaristia pude dar-lhe a
hóstia consagrada, a Eucaristia, que é a experiência na qual somos
alimentados pelo Amor de Cristo. Jesus Cristo esteve ali
presente como há 2000 anos atrás... e o colheu, como faz com todos que recebem
a Eucaristia durante a missa.
Nossos últimos momentos juntos foram no corredor do
hospital, deitado na maca, a caminho do centro cirúrgico. Com muita fé e amor
fiz em sua testa o sinal da cruz... sem acreditar que seria o meu último gesto e
contato com o senhor. Dei-lhe um abraço e em pensamento entreguei-o nas Mãos
de Jesus e Maria.
Pai creio que está junto a Deus Pai. Aceite
esta homenagem em meio de saudades... muitas saudades... Peço-lhe agora a sua
bênção... como quando eu era criança.
Sua filha,
Célia
São Paulo, Dia dos Pais, 2003
Saudades desde 06 de maio de 1998