Vivo no vôo da ave e
na dança do vento,
No ranger da porta que
se abre,
E no bater da porta
que se fecha.
Vivo nos interstícios
de cada lamento...
Vivo nos intervalos da
vida, quando parece que tudo pára.
No movimento das ondas
do mar manso ou revolto,
Na calmaria dos lagos
e na estiagem das tempestades.
Vivo no calor
estonteante do sol escaldante...
Vivo nos respingos da
chuva e no perfume das flores,
No cantar dos
pássaros, no choro das crianças,
No olhar meigo
dos velhos, na arrogância do adulto
No medo e na
tenacidade de toda a humanidade.
Vivo na pureza ímpar
dos inocentes,
Nas rugas de
sofrimento, esculpidas na dor;
Nas rugas de
alegria, formadas no riso.
Vivo na hipocrisia, na
maldade, no horror...
Vivo nas mazelas e nas
alegrias
Na mão que fere, na
mão que cura e acaricia,
Vivo no grito que
desnorteia.
Vivo nos encontros e
desencontros, noite adentro...
Vivo nos amores, nas
amizades, nas dores,
Nas amenidades, nas atrocidades,
nos desvarios.
Vivo na incoerência,
nos desastres, na indiferença
Nas realizações, nas
conquistas e nas
derrocadas.
Vivo nas
incompatibilidades e desagravos,
Nas vicissitudes dos
acertos e desacertos.
Vivo nos pendores e na incompetência,
Na gama variada dos sabores e
nos
dissabores.
Vivo no prato feito e
nas iguarias de cada dia.
Na fragilidade
subentendida na verdade e na mentira.
Vivo na imprudência e nos
desafetos,
Vivo no julgo e na
liberdade.
Vivo no lodo em que
sou mergulhada, à revelia.
Vivo na vulgaridade,
na integridade e na nostalgia.
Vivo nas incoerências
em que sou atolada,
Na esperança dos
sonhos e nas fantasias.
Vivo no formato das
nuvem e no nascer de cada dia.
No cair da noite ao
findar da tarde preguiçosa,
No olhar confiante e
na raiva que destrói.
Na sentença que
condena ou na fala que liberta.
No amor que frutifica
e no amor que mata,
Na coragem dos bravos
e na covardia.
Vivo no desespero dos
abandonados
Na indolência dos
fracos e dos
ociosos.
Na certeza dos que
esperam e crêem,
Na incerteza, na
doença e no estertor da morte.
Vivo nas entrelinhas
desse texto e no correr das horas.
Nos começos, nas
recompensas e no findar da sorte.
Na tessitura rota do
desgosto, lacerada qual ferida, doída,
Na grandeza do porvir
e na promessa do amanhã.
No nascer sublime de
uma criança,
Na revolta dos
indômitos adolescentes.
Vivo nas preces
cantadas nos templos,
Na fé espalhada nas
dobras dos tempos.
Na beleza inconteste do
firmamento.
Vivo na paz,
no perdão, na
melodia...
Vivo na luz distante
de cada estrela,
Na solidão e na
saudade dos ausentes.
Vivo na dura realidade
e nos rompimentos,
Na elegância instintiva dos
animais.
Vivo nas águas
cantantes dos rios,
Nas densas florestas e
nos cafezais.
Na honestidade sem
concessões,
Na fome dos
desabrigados, na descrença dos oprimidos...
Vivo na fatalidade e
na desesperança,
Na sinceridade dos
desvalidos.
Na ganância dos
poderosos,
na garra dos predadores
Na impotência dos
derrotados
e dos perdedores.
Vivo nos rótulos, na
discriminação,
Nas homenagens, na
devoção,
Na vitória dos
lutadores,
Nas ameaças da cruel barbárie.
Vivo no cochilar suave da
montanha,
No reconfortante
crepitar do fogo.
Em cada nova centelha
de vida.
Vivo nas coisas de que
nunca ouvi falar...
Vivo na luz e nas
sombras,
Em todos os pares de
opostos,
Na vida, que a vida
abriga.
Nas malhas desse
universo imenso...
Vivo no passado, no
presente e no futuro,
Na teia, pela vida
tecida.
Vivo na Alma da Vida!
Vivo na Alma do Mundo!
Na Alma da Alma, Vivo!