Vivo!

Flori Jane

 

Vivo no vôo da ave e na dança do vento,

No ranger da porta que se abre,

E no bater da porta que se fecha.

Vivo nos interstícios de cada lamento...

 

Vivo nos intervalos da vida, quando parece que tudo pára.

No movimento das ondas do mar manso ou revolto,

Na calmaria dos lagos e na estiagem das tempestades.

Vivo no calor estonteante do sol escaldante...

 

Vivo nos respingos da chuva e no perfume das flores,

No cantar dos pássaros, no choro das crianças,

No olhar meigo dos velhos, na arrogância do adulto

No medo e na tenacidade de toda a humanidade.

 

Vivo na pureza ímpar dos inocentes,

Nas rugas de sofrimento, esculpidas na dor;

Nas rugas de alegria, formadas no riso.

Vivo na hipocrisia, na maldade, no horror...

 

Vivo nas mazelas e nas alegrias

Na mão que fere, na mão que cura e acaricia,

Vivo no grito que desnorteia.

Vivo nos encontros e desencontros, noite adentro...

 

Vivo nos amores, nas amizades, nas dores,

Nas amenidades, nas atrocidades, nos desvarios.

Vivo na incoerência, nos desastres, na indiferença

Nas realizações, nas conquistas e nas derrocadas.

 

Vivo nas incompatibilidades e desagravos,

Nas vicissitudes dos acertos e desacertos.

Vivo nos pendores e na incompetência,

Na gama variada dos sabores e nos dissabores.

 

Vivo no prato feito e nas iguarias de cada dia.

Na fragilidade subentendida na verdade e na mentira.

Vivo na imprudência e nos desafetos,

Vivo no julgo e na liberdade.

 

Vivo no lodo em que sou mergulhada, à revelia.

Vivo na vulgaridade, na integridade e na nostalgia.

Vivo nas incoerências em que sou atolada,

Na esperança dos sonhos e nas fantasias.

 

Vivo no formato das nuvem e no nascer de cada dia.

No cair da noite ao findar da tarde preguiçosa,

No olhar confiante e na raiva que destrói.

Na sentença que condena ou na fala que liberta.

 

No amor que frutifica e no amor que mata,

Na coragem dos bravos e na covardia.

Vivo no desespero dos abandonados

Na indolência dos fracos e dos ociosos.

 

Na certeza dos que esperam e crêem,

Na incerteza, na doença e no estertor da morte.

Vivo nas entrelinhas desse texto e no correr das horas.

Nos começos, nas recompensas e no findar da sorte.

 

Na tessitura rota do desgosto, lacerada qual ferida, doída,

Na grandeza do porvir e na promessa do amanhã.

No nascer sublime de uma criança,

Na revolta dos indômitos adolescentes.

 

Vivo nas preces cantadas nos templos,

Na fé espalhada nas dobras dos tempos.

Na  beleza inconteste do firmamento.

Vivo na paz, no perdão, na melodia...

 

Vivo na luz distante de cada estrela,

Na solidão e na saudade dos ausentes.

Vivo na dura realidade e nos rompimentos,

Na elegância instintiva dos animais.

 

Vivo nas águas cantantes dos rios,

Nas densas florestas e nos cafezais.

Na honestidade sem concessões,

Na fome dos desabrigados, na descrença dos oprimidos...

 

Vivo na fatalidade e na desesperança,

Na sinceridade dos desvalidos.

Na ganância dos poderosos, na garra dos predadores

Na impotência dos derrotados e dos perdedores.

 

Vivo nos rótulos, na discriminação,

Nas homenagens, na devoção,

Na vitória dos lutadores,

Nas ameaças da cruel barbárie.

 

Vivo no cochilar suave da montanha,

No reconfortante crepitar do fogo.

Em cada nova centelha de vida.

Vivo nas coisas de que nunca ouvi falar...

 

Vivo na luz e nas sombras,

Em todos os pares de opostos,

Na vida, que a vida abriga.

Nas malhas desse universo imenso...

 

Vivo no passado, no presente e no futuro,

Na teia, pela vida tecida.

Vivo na Alma da Vida!

Vivo na Alma do Mundo!

Na Alma da Alma, Vivo!

 

 

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