Sombras

Flori Jane

 

 

Sombras... pedaços de vida exilados

Denunciando o suspeito e o insuportável

Resguardando em um casulo impenetrável

A tudo que, por medo, renuncio e condeno.

 

 

Sombras... que de tão vivas, tornaram-se sonoras

Chego a ouvi-las, perfilando-se na espera

Na expectativa ante um não que reverbera

Escravas incontestes do correr das horas.

 

 

Sombras... acobertadoras

De segredos inconfessos, diversos

Emparedando verdades, impondo lacunas

Cindindo-me em metades de trevas e luz .

 

 

Sombras, cujas trincheiras foram de improviso abertas

E que ganharam espaço, ao se verem libertas

 Sombras... incuráveis feridas

Que mesmo contidas, sangraram.

 

 

Sombras quebrando barreiras, com a sua chegada

Desfazendo enganos, estilhaçando as vidraças

Mostrando, na inteireza, o barro de que sou feita

Expondo-me em nuances, na mais rude aspereza

 

 

Sombras, a refletirem luz ...

Revelando o sagrado, por tanto tempo contido

 Liberando uma multidão de sonhos reprimidos

Desvendando os mistérios da razão cindida.

 

 

Sombras ... a desnudar-me

Deixando-me, por suposto, vencida

Impondo-se à consciência vezes seguidas

Mostrando-me, afinal, quem eu sou.

 

 

Sombras, iluminadas, por fim

Festejando a vida nas emoções soltas, fluídas

Águas revoltas lavando a alma ferida

E um Eu diferente, moldado em plena luz.

 

 

08/08/2004

 

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