Um dia... comecei a ouvir
estrelas
Foi quando conheci a poesia
Da pena encantada de Bilac
Os versos que, primeiro, eu
decorei
E só depois deste velado amor
Em que o senso, por certo, eu não perdi
Meus sentidos todos se aguçaram
E a poesia alargou meus sentimentos

Hoje, a vejo em lugares variados
Incrustada como pedra preciosa
Revelando-se em termos inesperados
Na alma do poeta insinuada

Ah...soberba poesia que exala
Qual neblina que se desprende do solo
quente
Quando a chuva lhe rebate caprichosa
Nas horas imprecisas do entardecer

Poesia que se recolhe às dúzias
Dos passinhos delicados
Dos olhares angelicais e risos sufocados
Das zombarias infantis

Poesia que vagueia no estalar do vento
arrependido
Que acaricia, entristecido, os trigais
Embalando-os em canções de ninar
Após açoitarem, sem piedade, os cafezais

Poesia que desliza como a dama
inconseqüente
Que passeia inconsciente
Do encantamento criado ao seu redor
Pelas luzes que tremulam em seu caminhar

Ah... poesia que se disfarça
E se esconde nos cabelos ralos
Das avozinhas queridas
que contemplam seu passado

Com ares de esquecidas
E enfeitam nossos lares
Com suas colchas bem passadas
De cambraias perfumadas

Poesia que se adivinha entre os casais
No toque de mãos, nos olhares
Oblíquos e doces luzires
Nos salões e sob os lençóis

Poesia que irrompe
Das raízes que o asfalto rompem
Em busca da luz solar
Poesia dos pássaros nos beirais

Poesia das borboletas destemidas
Que se lançam ao desabrigo
Arriscando-se à Vida
Ao vôo, à liberdade
