Intolerável Indiferença

Flori Jane

 

A imagem insiste em recompor-se

Na mente insone e ainda ofegante

Revejo, malgrado o sofrimento,

Aquele hediondo e atroz momento

Em que me aninhei nas asas da dúvida

E resvalei nas sombras de uma

Intolerável indiferença

Os pés pequenos, pés de uma criança

Aguardando imóveis a mordaz sentença

Em torno, tudo conspirando, em total silêncio

Tudo estático, o mundo inteiro em suspenso

Aguardando de mim, a palavra final

O tempo se congelando

Visivelmente, na janela

A alma a se constranger, a mente dividida

Nas árvores, o gélido serpentear do vento

 Que a tudo assistia, entristecido,

Sustentando, a prumo, um sincero lamento

 Quem sabe, testemunha do último alento

De um andarilho que ali repousava

Quase noite e, sem esperança, à espera

Na porta, inerte, a pobre criança

A tremer, sorria

E no olhar que se escondia,

Furtivo, atrás de uma cortina...

O receio, a repulsa, a fria indecisão

Acolher o horror que se apresentava

Ou rejeitar a verdade ali exposta,

Nua e crua?

Fechar os olhos e ignorar, talvez?

Ouvir o amor oculto entre as cismas

Tão profundamente soterrado

Ou aliar-se à indisfarçável indiferença

De toda a gente anônima que passava?

Pagar o preço da solidariedade

Pelo incômodo que a ajuda implica

Ou esquivar-se do compromisso

Fechando os olhos, tornando-se omisso?

Amparar, entregar-se às emoções

Acolher, doar seu tempo, fazer-se humano

Envolvendo-se

Ou relegar tudo a um outro plano

Deixar passar e recolher-se à culpa

Remoendo a dor da ajuda que faltou?

Bendigo os olhos tristes e solenes

Daquela criança

Que despertou-me do torpor profundo

Resgatando a criança em mim adormecida

Bendigo aquela alma amável e generosa

Que em sua sabedoria amorosa

Tomou conta de mim.

 

Flori Jane

São Paulo - Brasil

02/11/2004

 

 

 

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