A imagem insiste em recompor-se
Na mente insone e ainda ofegante
Revejo, malgrado o sofrimento,
Aquele hediondo e atroz momento
Em que me aninhei nas asas da dúvida
E resvalei nas sombras de uma
Intolerável indiferença
Os pés pequenos, pés de uma criança
Aguardando imóveis a mordaz sentença
Em torno, tudo conspirando, em total silêncio
Tudo estático, o mundo inteiro em suspenso
Aguardando de mim, a palavra final
O tempo se congelando
Visivelmente, na janela
A alma a se constranger, a mente dividida
Nas árvores, o gélido serpentear do vento
Que a tudo assistia, entristecido,
Sustentando, a prumo, um sincero lamento
Quem sabe, testemunha do último alento
De um andarilho que ali repousava
Quase noite e, sem esperança, à espera
Na porta, inerte, a pobre criança
A tremer, sorria
E no olhar que se escondia,
Furtivo, atrás de uma cortina...
O receio, a repulsa, a fria indecisão
Acolher o horror que se apresentava
Ou rejeitar a verdade ali exposta,
Nua e crua?
Fechar os olhos e ignorar, talvez?
Ouvir o amor oculto entre as cismas
Tão profundamente soterrado
Ou aliar-se à indisfarçável indiferença
De toda a gente anônima que passava?
Pagar o preço da solidariedade
Pelo incômodo que a ajuda implica
Ou esquivar-se do compromisso
Fechando os olhos, tornando-se omisso?
Amparar, entregar-se às emoções
Acolher, doar seu tempo, fazer-se humano
Envolvendo-se
Ou relegar tudo a um outro plano
Deixar passar e recolher-se à culpa
Remoendo a dor da ajuda que faltou?
Bendigo os olhos tristes e solenes
Daquela criança
Que despertou-me do torpor profundo
Resgatando a criança em mim adormecida
Bendigo aquela alma amável e generosa
Que em sua sabedoria amorosa
Tomou conta de mim.