Estacionar: essa façanha nossa de todo dia!

 

Por Flori Jane Pizeli Teixeira Spósito

 

 

Quarta-feira, final de tarde. Céu toldado pela ameaça de chuva...

 

Escapando de um trânsito tipicamente paulista consigo, finalmente, chegar ao meu destino. Estou decidida a estacionar meu carro em frente à Clínica onde faço um tratamento. Por isso, chego mais cedo, esforçando-me para conseguir uma disputada vaga das quatro existentes no local e, desta forma, livrar-me da taxa do estacionamento e do incômodo de caminhar até lá.

 

Aguardo tranqüilamente em frente à Clínica, na expectativa de que alguém encerre sua permanência e libere uma vaga. Rádio ligado, ao som de uma agitada e deliciosa seqüência de MP3, escolhida a dedo para encurtar o percurso, revejo o extenso e cansativo dia deixado para trás. E eis que, repentinamente, surge a tão esperada oportunidade. Uma jovem entra no carro e respiro aliviada, porém cedo demais. O carro permanece imóvel. Continuo aguardando na esperança de que ela esteja se organizando antes de sair. Em vão!

 

Encho-me de coragem, pois detesto ser inconveniente com as pessoas e desço do carro, aproximando-me, cautelosamente: – “Você está chegando ou saindo?” “Estou esperando minha mãe”, responde-me a garota morena, simpaticamente. “Estou alimentando meu bebê”, acrescenta sorrindo. – “Que graça! Uma gestante..." surpreendo-me e murmuro um agrado pela criança que está a caminho.

 

A futura mamãe se oferece para liberar a vaga, porém respondo que fique tranqüila, pois posso esperar. Insistimos, ambas, delicada e atenciosamente. Lamento o incômodo e reafirmo que vou esperar, retornando para meu posto.

 

Pouco tempo depois, ela desce do carro e acena-me, propondo uma troca de posição. Terminara o lanche, concluo. E assim foi.

 

Tive desejos de abraçar e beijar a meiga criatura que gentilmente cedeu-me a vaga, trocando comigo de lugar. Pareceu-me mais sensato que ela aguardasse na rua, deixando a vaga para os clientes, portanto aceitei a oferta. Mesmo assim, não resisti ao impulso de agradecer-lhe calorosamente pela amabilidade e consideração e dirigi-me até o seu carro para demonstrar-lhe minha gratidão.

 

Deu certo, pensei! Valeu a pena sair mais cedo e esperar. Que menina gentil, um docinho de pessoa... disse a mim mesma, profundamente grata. Um dia de sorte!

 

Ao término de minha sessão, já saindo da Clínica, observo um carro impedindo a saída do meu. Minha hora de retribuir, considerei. Bem, não tão tranqüilo assim... Entro no carro e o coloco em movimento. Lá fora, nada se altera. Nenhum sinal de vida no carro que bloqueia o meu. Desço e vou espiar pelo vidro fumê. Ninguém!

 

Quase não acredito... O sangue latino sobe! De fato, ainda existem pessoas assim... Vou até a porta da Clínica e solicito providências ao funcionário. Ouço um : - Ah... Vou tirar (como se estivesse me fazendo algum favor).

 

Engato a ré e me preparo para sair. Cansada, exausta como estou, esse pequeno ritual assume proporções inéditas. Penso: - Não vou agradecer. E de fato, não o faço. Saio irritada comigo mesma, cobrando-me por engolir o desrespeito e prometendo a mim mesma que, de uma próxima vez, eu não sairia calada. Ao contrário, ocorrendo algo semelhante, faria questão de abordar o responsável ou “irresponsável” e direcionar minha indignação a quem de direito.

 

Por que deveria eu passar pelo incômodo que passei? E comecei a refletir sobre pessoas como aquela que, aparentemente, enxergam apenas o próprio umbigo. Pessoas que desconsideram o outro, em benefício próprio; que pouco se importam com o desconforto do outro, conquanto estejam realizando o seu intento.

 

Alguns diriam: - Por que incomodar-se com tão pouco? Eu mesma, geralmente procuro desculpas para as pessoas, imaginando tratar-se de uma emergência. Mas não desta vez. Desta vez, questionei minha passividade em defender o meu bem-estar.

 

Isso daria uma crônica, pensei. E todo o diálogo foi montado durante o caminho. A raiva foi se diluindo... Será que as pessoas escrevem crônicas para diluir os sentimentos e agir civilizadamente, quando  desrespeitadas?

 

E durante o trajeto, disse, em meu pensamento, uma série de verdades aquela mulher. Foi um exercício, pensei. Eu estava aprendendo a lidar com minhas emoções. Não as estava engolindo, e sim transformando em um diálogo produtivo, que levaria a público, desta vez pela escrita.

 

O que eu diria aquela criatura quando a encontrasse novamente? Fui arquitetando uma forma de mostrar-lhe que não se dispõe do tempo e do bem-estar de outras pessoas, indiferentemente. Causar prejuízo ao outro para resolver os próprios problemas é, no mínimo, antiético. Será que algum dia ela poderia compreender isso? Algo tão simples como o respeito e ela não conseguira suportar... Suportaria um dia a convivência ética e o desvelo pelo outro, como a minha salvadora fizera?

 

Eu preferi pensar na adorável criatura que cuidara da minha necessidade espontaneamente, a perder o meu bom-humor com alguém que ainda precisava aprender a viver em sociedade, mas prometi a mim mesma, que de uma próxima vez eu tentaria ensiná-la. Afinal, talvez ela não tenha consciência do valor de cada um. Talvez ela não tenha recebido noções mínimas de convivência e cidadania.

 

Mas é sempre tempo, concluí. Naquela tarde eu aprendera algo. Pela primeira vez em minha vida, ao viver uma experiência tão corriqueira, ocorreu-me transformá-la em uma crônica. E, aqui estou, a rabiscar algo graças ao despudor e o descuido de alguém. Senti que a raiva não ficou fervendo e remoendo dentro de mim. Em vez disso, transformou-se em um projeto, trazendo-me alívio e devolvendo-me a serenidade.

 

Obrigada, moça mal-educada! Afinal, ajudou-me a crescer.

 

 

01/12/2006

 

 

 

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