|
CARTA DE UM CONTESTATÁRIO VIRTUAL
Mãe, Posso trata-la assim, não posso? Afinal ainda sou um projecto consciente de não saber onde, continente, língua em que escrever, mas que sei que entenderás porque é universal. Talvez aches esta carta um pouco atrasada, mas também, as pessoas têm a mania das datas, e eu aqui, ainda tão distante, sem saber raça, sexo, se de olhos azuis ou cabelo preto, vivendo neste ambiente de luz tranqüila e de paz, e me alimenta, me pergunto; Mãe tem data certa? Não é Mãe todos os dias, todas as horas?!! Na verdade não conheço teu rosto, a cor do teu cabelo. Ainda não vi o teu olhar, as tuas mãos, o teu aconchego. Não senti as tuas caricias, o teu mimo, o teu amor, mas sei que estás aí. Sei que depois de muitas horas de trabalho terás horas para mim. Sei, que mesmo cansada, caída de sono não adormeces sem ver a dormir e se acordar, logo despertas sem perturbar teu sono. Sei que mesmo triste, terás sempre um sorriso e mesmo que indisposta, uma brincadeira. E quando chateada, mesmo irritada, com o transito, o patrão , o chefe do banco que te negou o cheque, ou, até mesmo com o pai, me mimarás na tua encantadora calma de todos dias. Eu sei que essas mãos calejadas, cansadas, terão sempre um espaço de caricia, de tão suaves que serão. Eu sei, mãe, que viste aquele vestido bonito que sempre ambicionas-te, mas preferirás comprar aquele brinquedo com uma sirene barulhenta de que tanto gostarei e que não te importarás de ouvir, apesar dessa tua dor de cabeça que te atormenta. Eu sei que todos os dias me afagarás no teu seio e que teu amor será eterno, desculpante, disciplinado também. Por tudo isto e por muito mais que falta dizer e apesar de não saber quem és, sei o mais importante, és MÂE. Daí que não entenda o porquê desta data, e depois em cada pais tem a sua e outros nem tem – mas, MÃE não é só uma, seja onde for? Não entendo o porquê de um dia da Mãe em um só dia, e os outros dias? Por vezes fico a pensar – porque eu já penso, sabias? – isto é uma grande injustiça. Já não chega dessas guerras, as drogas, as armas, as mortes, a fúria pelo poder a todo o preço, a fome, a falta de o mais elementar para os meus irmãos já nascidos, que nem uns sapatos ou umas calças para vestir, um agasalho para fugir do frio, um papel para desenhar um sonho,e , que passam os dias catando no lixo a comida da noite. Talvez quando leres isto me chames de contestatário, só que mesmo que virtual, criado no imaginário infinito, tenho direito a pensar, a ter idéias, a criticar. Como tenho o direito de sonhar de um dia estar nos teus braços, ouvindo a tua canção preferida que será a minha. Afinal não vivemos num mundo de chips e outras coisas virtuais? Como tal tenho direito á indignação, não achas? Ou será que tenho de nascer para fazer uma birrinha....? Fica sabendo que quando se nasce e se chora, não estamos a pedir, mas a exigir, e tu, mãe, és sempre a primeira a acudir. Mas se eles tiverem razão e a Mãe tiver só um dia no ano, então me desculpa o atraso. Só que nunca é tarde para te dizer – Espero por ti, Amo-te. Com um grande beijo e um até breve EU
Luís Paiva Adães estelaregis.adaes@ibest.com.br
* * *
|