Diz-se, geralmente, que se
conhecem as pessoas pela sociedade que freqüentam e que, da mesma forma que
os nossos corpos tomam sustento apropriado na carne, que nos serve de alimento,
assim a virtude e o vício penetram, insensivelmente, em nossas almas, pelo
exemplo ou pela conversação da boa ou má companhia.
Hoje sabemos que é, incontestavelmente, impossível que o contato com aqueles que nos rodeiam não
produza uma grande influência sobre a formação do nosso caráter.
Todos nós somos, por
natureza, imitadores e todos nós nos deixamos impressionar pelas palavras, pelo
modo de andar,pelos gestos, pelo modo de vestir e, principalmente, pelo modo de
pensar do ambiente em que vivemos.
O exemplo não é nada.
É tudo.
O exemplo é a escola da
humanidade, que não quer, senão através dele, aprender. E aqui, vale lembrar a
divisa que Burke escreveu para as Taboas do Marques de Buckingan :
Lembra-te! Imita e persevera.
A imitação é, em geral, tão
inconsciente, que seus efeitos passam desapercebidos, mas a sua influência não
deixa, por isto, de ser permanente e é, somente, quando a natureza capaz de
fazer impressionar é posta em contato direto com outra, suscetível de ser
impressionada que se podem notar as mudanças, produzidas no caráter.
A ação dos sentimentos é
como a ação dos pensamentos, como a ação dos costumes: constante .
A ação do exemplo é
incessante...
Firmado nestas premissas,
tenho feito as minhas opções de companhia.
Tenho escolhido as minhas
alternativas de existência e “vim vindo pela aí”, tracejando os meus
despretenciosos projetos de vida, fugindo ao convívio daqueles que, timidamente,
esperam pela oportunidade dos fatos e buscando,avidamente, àqueles que, mesmo
correndo riscos, ousam criá-las
Não me harmonizando, e
nunca, com aqueles que, por temor à opinião alheia, se furtam a momentos
sublimes de pura autenticidade, cuidadosos de evitar as pechas que a infâmia
tece e a calúnia espalha.
Não me alinhando aos que, a
mancheias, esbanjam a prodigalidade generosa de suas preconceituações e fazem do
elogio fácil, arma de ataque e defesa no conquistar posições que não conseguem
atingir, mercê do seu próprio talento, de sua própria conduta e de sua
capacidade própria.
Não me fazendo cego, por
interesse; surdo, por deslealdade e mudo, por covardia. Buscando, isto sim,
(embora nem sempre eu tenha assimilado bem os exemplos que vividos ) ser reto de
intenções, humilde de espírito, grave e incorruptível.
Procurando ser íntegro em
opinar, e mais, integro em ouvir, requisitando a companhia daqueles que, amigos
da tolerância, da razão e da eqüidade, podem e..... conseguem exigir um pouco
mais de compreensão, um pouco mais de serventia e um pouco mais de obediência.
E, neste “vir vindo pela aí”,
tenho procurado ser o Verbo e o Sujeito de minha própria oração, para cujo
Predicado tenho, pela procura do exemplo, buscado um pouco mais de correção
moral, um pouco mais de probidade.
Tentando ( e é este bem o
termo) fazer com que objetos complementares que são, passem a integrar o meu
termo existencial, para que se não se seque a fonte de idealismo que alimenta e
protege esta pequena partícula, em evolução neste planeta, que é minh’alma.
E, hoje, estou aqui. Como
somatório, como conseqüência, como criatura-produto-em-fase-de-acabamento,
reencontrando em cada um(a) de vocês,
as minhas causas determinantes, as minhas parcelas ....... os meus fatores de
criação.
Freqüentando-os(as), encontrei
em cada um(a) de vocês, uma fonte revigoradora de ânimo e inspiração e, hoje, a
minha experiência de vida se acha realçada por ela.
Freqüentando-os(as), pude
corrigir, aqui e ali, os meus juízos conforme os seus e cheguei a estar
associado à sabedoria de todos(as) vocês.
Freqüentando-os (as), alarguei
o meu campo de observação.... Vendo pelos seus olhos, aproveitando ao máximo as
suas vivências e, sempre e sempre, aprendendo não só pelo que vocês têm gozado,
mas também, o que me foi mais importante e precioso..., pelo que vocês têm
sofrido.
Do nosso convívio, estejam
certos (as), quem mais aproveitou fui eu mesmo, que, ávido, busquei:
nos exemplos de fortaleza de
minha mulher, ser também
coisas deste mundo.
Os gramáticos franceses
creditam a Montaigne a formação de uma das mais belas palavras do léxico – a
gratitude.
Mais nobre que a palavra é o
sentimento revelado por ela, um estado de graça interior que só a convicção da
própria humildade dilata e enriquece. E é cheio de gratidão pelo muito que devo
a todos (as) vocês que me quero permitir ainda dizer:
Já vou compondo em tom de
despedida.
Não que eu me vá, mas me
preparo agora
a que na falte,e quando
da partida,
esqueça alguém, na pressa
de ir-me embora...
Cinqüenta anos( para
alguns bem menos)
nos congraçaram em
sofrimento, amigo.!
E a nossa fé , mesmo
vivendo extremos,
mais estreitou-nos em
afeto, Digo
que não me esqueçam,
mesmo que anos passem
com os caminhos
tornando-nos dispersos,
mesmo que mais nos
distancie a morte,
Lhes devo muito... e
vocês todos(as) sabem
que toda a vez que eu
poetar, meus versos
terão saudades de quem
lhes deu porte.
Taças às mãos num brinde
derradeiro,
mas tão sincero puro e
verdadeiro
quanto a saudade que já
se aproxima.
Adeus amigos(as)... E um
amigo afirma
que somos todos, na hora
que se exangüe
Todos irmãos, e quase
irmãos de sangue.
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