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Os adultos 

 

        "Os adultos são gente crescida que vive sempre dizendo pra gente fazer isso e não fazer aquilo. Interrompem sempre o que a gente está fazendo pra mandar fazer outra coisa que a gente não quer mas quando a gente interrompe eles por qualquer motivinho o menos que apanha é uma bruta espinafração na frente dos de fora. Adulto promete muita coisa, agora fazer mesmo que é bom eu nunca vi. Quando a gente cobra, eles dizem que menino chato ou então falam que esqueceram  e vão fazer no domingo que vem. Eles sempre dizem que no seu tempo não era assim mas nunca  fazem o que obrigam a gente a fazer, como apanhar tudo que caiu no chão, andar sempre limpo e dizer somente a verdade. Os adultos também obrigam a gente a vestir bem limpinho pra ir nas festas mas eles mesmo vão de qualquer maneira que às vezes dá até vergonha, como aquela calça toda apertadinha da mamãe e aquela largona do papai. Eu quando crescer vou ser adulto só porque sou obrigado senão eu ia ser sempre pequenininho."

 

 

O comportamento

 

        "O comportamento é isso que a gente leva zero na escola e tapa do bom em casa. O comportamento é isso que o soldado tem de ter e o comandante não, como lá em casa que as crianças estão sempre se comportando mal, agora a mamãe e papai é só receberem uns amigos que fazem cada uma que eles nem sabem que eu e meu irmão saímos devagarinho lá da cama pra olhar eles, e se fosse no colégio nem zero era pouco pra dar pra eles todos. O que eles fazem botam a culpa no uísque e a gente só tem Coca-Cola pra dizer que foi por causa dela que a gente ficou doente mas o que acontece é que a gente acaba de castigo sem beber nenhuma a semana inteira. O que eu não sei mesmo é quem foi que inventou essa idéia de que garoto só muito quietinho e bem sentadinho e não mexendo em nada e nem comendo coisíssima nenhuma na casa dos outros e nem falando pras visitas o que papai fala delas, é que é bonito. Ah, pôxa!

        O comportamento é uma coisa que a mamãe diz que não suporta o meu mas eu é que não entendo o dela. Uma hora ela me dá uma porção de beijinhos, outra hora ela me põe de castigo o dia todo. Uma vez ela diz que eu sou tudo lá na vida dela, outra vez ela grita: "Que menino mais impossível, você vai ver só quando seu pai chegar!"Tem umas ocasiões que ela chora muito porque não sabe mais o que fazer comigo e outras eu ouvo ela dizendo pras visitas que "o meu, felizmente, é muito bonzinho e muito carinhoso". Eu já desconfio que a mamãe é a médica e a monstra*."

 

* Alusão ao romance inglês O Médico e o Monstro, de Robert Stevenson, cuja personagem central assume duas personalidade: uma boa e nobre, outra cruel e desprezível. A personagem é aqui lembrada para caracterizar o comportamento ambivalente da mãe.

 

Millôr Fernandes 

 

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