Escolha a Música


 JOÃO E  MARIA


Agora, eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três

Eu enfrentava o batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu badoque
E ensaiava o rock, para as matinês

Agora, eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
Era tão linda, de se admirar
E andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu peão, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu do mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar:
- O que é que a vida vai fazer de mim?

 


MINHA HISTÓRIA


Ele vinha sem muita conversa sem muito explicar
Eu só sei que falava, cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente
Laia,laia....

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperada, calada, sentada na pedra do porto
Com seu único velho vestido cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci minha mãe enrolou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A notar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou ser por amor
Decidiu me chamar com o nome de nosso senhor

E nome que ate carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro bebo e brigo
Os ladroes e as amantes, meu colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus

 


GENI E O ZEPELIN


De tudo que é negro torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes,
Dos moleques do internato
Dá-se assim desde menina
Na garagem e na campina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
É de quem não tem mais nada.
E também vai amiúde,
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

JOGA PEDRA NA GENI!
JOGA PEDRA NA GENI!
ELA É FEITA PRA APANHAR,
ELA É BOA DE CUSPIR!
ELA DÁ PRA QUALQUER UM
MALDITA GENI!

Um dia surgiu brilhante
Entre as luzes flutuantes
Um enorme zeppelin
Pairou sobre os edifícios
Abriu mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zeppelin gigante desceu o seu comandante
Dizendo "mudei de idéia"
"Quando vi nesta cidade tanto horror e iniqidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se essa formosa dama
Essa noite me servir"

ESSA DAMA ERA GENI!
MAS NÃO PODE SER GENI!
ELA É FEITA PRA APANHAR
ELA É BOA DE CUSPIR
ELA DÁ PRA QUALQUER UM
MALDITA GENI!

Acontece que a donzela,
Tão coitada, tão singela
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos,
O bispo com olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

VAI COM ELE, VAI GENI!
VAI COM ELE, VAI GENI!
VOCÊ PODE NOS SALVAR,
VOCÊ VAI NOS REDIMIR,
VOCÊ DÁ PRA QUALQUER UM
BENDITA GENI!

Foram tantos os pedidos,
Tão singelos, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco
Nessa noite alucinante
Se entregou a tal amante
Como quem nasceu carrasco
Ele lambuzou-se a noite inteira
E nem bem raiou o dia
Partiu numa nuvem fria
No seu zeppelin prateado

Num suspiro aliviado, ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia e a cidade em cantoria
Não deixava ela dormir

JOGA PEDRA NA GENI!
JOGA BOSTA NA GENI!
ELA É FEITA PRA APANHAR,
ELA É BOA DE CUSPIR!
ELA DÁ PRA QUALQUER UM
MALDITA GENI!

 


TERESINHA


O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha

Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E assustada eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida

Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E assustada eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração

 


O MEU GURI


Quando, seu moço, nasceu
Meu rebento
Não era momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Pra lhe dar
Como fui levando,
Ele a me levar
E na sua meninice ele
Um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri,
Olha aí olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro
Com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio
Pneu, gravador
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo
Pra me ninar
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado
Já foi trabalhar,
Olha aí olha aí
Ai meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado
Com vendas nos olhos, legenda
E as iniciais
Eu não entendo
Essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato,
Acho que tá rindo
Acho que tá rindo
De papo pro ar
Desde o começo, eu não disse,
Seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, aí meu guri
Olha aí olha aí,
É o meu guri

 


CHICO BUARQUE


                                             

 

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